Fim de tarde, e Jonathan estava sozinho em casa. Foi até a cozinha preparar algo para comer. Abriu a geladeira e constatou que estava às moscas. Por fim, resolveu checar a dispensa, depositando ali as últimas esperanças de ter algo para comer naquela noite.
Passou os olhos pela dispensa por alguns instantes. Estava escura, quase impossível de se enxergar algo ali. De repente, sentiu o coração – ou seria o estômago? – enchendo-se de esperança. Ali estava, solitário e praticamente escondido, um intacto pacote de Cheetos.
A dispensa era funda, e o alvo de Jonathan estava fora do alcance de suas mãos. Resolveu entrar de quatro na dispensa, e engatinhou até o fundo. Pegou o salgadinho e se ergueu vitorioso, satisfeito com a conquista. Todavia, não contava com uma coisa: Havia uma prateleira colocada bem acima da sua cabeça, e bateu nela com tudo. A força foi tanta que a prateleira não resistiu e soltou-se da parede, caindo por cima dele.
Assim que teve certeza de que nada mais despencaria, Jonathan abriu os olhos e ficou surpreso com o que viu. Aparentemente a dispensa não estava tão vazia assim antes. Alem do pacote de Cheetos, parecia haver outra coisa ali. Pegou o que parecia ser um pedaço quadrado de papelão e saiu da dispensa para poder ver do que se tratava.
Ficou intrigado ao descobrir que aquilo era, na verdade, um disco de vinil. Ele nunca tinha ouvido falar no artista da capa, David Bowie, mas a curiosidade era grande. Assoprou a poeira e levou o LP até o antigo tocador dos pais. Abriu o pacote de Cheetos enquanto Bowie cantava. No início era agradável ouvir a música enquanto comia, até que começou a se dar conta de uma coisa… O salgadinho sendo mastigado em si era uma música, e ela simplesmente não combinava com Rebel, Rebel, a música que o disco tocava. Aquilo começou a incomodá-lo, os sons pareciam brigar entre si. Sentia agora uma terrível dor de cabeça, insuportável, como se a música soasse cada vez mais alto, e o “crash crash” das bolas amarelas o deixava louco.
Ele estava suando, desesperado, tapando os ouvidos com as mãos. O pacote de Cheetos caíra no chão e ele tremia. Os sons insistiam em invadir-lhe a cabeça, e ele não sabia mais o que fazer. A respiração forte, o coração acelerado… Sentia que ia morrer.
Era necessário tomar uma decisão, aqueles dois sons não podiam coexistir. Um deles deveria parar, tinha que ser abandonado. Jonathan levantou-se e foi até a janela aberta, o apartamento dele ficava na cobertura. Olhou para fora, depois para o pacote no chão e então para o LP, por fim, decidiu-se. Foi até o sofá e pegou o pacote no chão. Correu até a janela e atirou-o o mais longe que conseguiu, sem hesitar.
O alívio foi imediato. O barulho de salgadinho não podia mais ser ouvido e Jonathan, cansado, deitou-se no sofá. Não tardou a dormir, embalado por David Bowie.
Não tinha nem dez minutos que ele dormia quando seu pai chegou em casa e ouviu aquela música. Achou estranho e foi até o filho que dormia. Erguei as sobrancelhas ao ver o velho LP tocando e olhou para a esposa.
- Eu podia jurar que tinha jogado isso fora. – Comentou, tirando o disco do tocador e jogando-o no lixo enquanto terminava de tomar a sua latinha de Coca-Cola.

Que absurdo o pai! Certo o menino que jogou o Cheetos… Viva David Bowie!!!! *-*
Comentário por Nathane — 04/22/2010 @ 6:34 PM |